Deficiência de G6PD

A Deficiência de G6PD (Glicose 6 Phosfate Desidrogenase) é a deficiência enzimática mais comum que existe, porém pouco estudada e assim menos ainda compreendida pela área médica.

A deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é uma das eritroenzimopatias mais comum, em que a enzima G6PD tem sua atividade diminuída no eritrócito. Essa deficiência pode resultar em anemia hemolítica, particularmente após a administração de certas drogas, durante infecções, acidose diabética, no período neonatal e se acha, também, associada à ingestão de alguns alimentos, como o feijão fava.

Hoje, estima-se que existam 400.000.000 de pessoas afetadas em todo o mundo, segundo Scriver et al., em 1995, tendo-se observado que a prevalência é maior nas populações da África, Mediterrâneo e Oriente, podendo ser encontrada mais raramente em outras populações. Assim, o diagnóstico precoce da deficiência de G6PD é de vital importância para que se possam prevenir quadros de hemólise e suas conseqüências.

A G6PD é uma enzima que faz parte do metabolismo da glicose no glóbulo vermelho, catalisando reações complexas de oxidação-redução.

Como o glóbulo vermelho não possui núcleo e, assim, não dispõe do ciclo de Krebs, aproximadamente 90% da glicose é metabolizada por via anaeróbia (via de Embden-Meyerhof), cujo produto final é o lactato, sendo sintetizada a adenosina-trifosfato. Os 10% restantes são metabolizados por meio do chamado ciclo das pentoses, onde atua a G6PD, que em níveis normais induz à formação de nicotinamida-adenina-dinucleótido-fosfato reduzido (NADPH) que, por sua vez, mantém um potencial redutor, impedindo a oxidação da hemoglobina, mantém a integridade do eritrócito e a função carreadora de oxigênio.

De modo resumido e simplificado, pode-se dizer que quando há diminuição da G6PD, quantitativamente ou de sua atividade e estabilidade, há maior destruição dos eritrócitos, principalmente se houver exposição a agentes oxidantes (químicos ou alimentares), na presença de infecções ou acidose e, principalmente, no período neonatal, com a caracterização clínica de uma anemia hemolítica.

A vida do eritrócitos deficientes em G6PD é mais curta sob muitas circunstâncias, conforme já foi assinalado. A razão exata para isso não é plenamente conhecida. Por sua vez, a hemólise das células vermelhas deficientes em G6PD é geralmente acompanhada pela formação de corpúsculos de Heinzs, partículas formadas pela destruição da hemoglobina e a lise protéica, o que ocorre somente na presença de oxigênio. Esse mecanismo da formação dos corpúsculos de Heinzs tem sido objeto de muitos estudos e investigações.

Assim, quando as células deficientes são expostas a algumas drogas, como, por exemplo, a naftalina, formam-se os corpúsculos de Heinzs mais rapidamente do que nas células normais. Células com corpúsculos de Heinzs encontram dificuldade em atravessar a barreira esplâncnica e são rapidamente eliminadas da circulação.

Um outro aspecto interessante diz respeito à formação de metaemoglobina, que freqüentemente acompanha a administração de drogas com capacidade de causar hemólise em células vermelhas deficientes em G6PD. Sabe-se que o grupo heme da metaemoglobina se desliga da globina mais prontamente que o grupo heme da oxiemoglobina. A formação de metaemoglobina, porém, ainda não está clara no processo de oxidação, degradação e formação de corpúsculos de Heinzs. Ainda não se pode afirmar se é acidental ou resultado da ação das drogas oxidativas.

A icterícia neonatal, na deficiência de G6PD, é provavelmente devido à vida curta das células vermelhas e ao processo inadequado de metabolização da bilirrubina pelo fígado imaturo do RN com deficiência de G6PD. A anemia pode não estar presente nas crianças e, comparando-as aos adultos, observou-se que naquelas o fígado tem a capacidade de catabolizar a hemoglobina em níveis muito próximos do normal.